Entre os meus 5 e 8 anos de idade, por esta altura do ano , rara era a ocasião que eu não passasse uns bons dias de cama devido ao sarampo que passava lá por casa. Aquelas manhãs e tardes eram intermináveis apesar da companhia que me faziam os meus 9 irmãos e irmãs mais velhos. Quase sempre abrasado em febre - que só passava com os dias -, muitas vezes adormecia embalado pela melodia do canto nupcial dos melros ,que ao desafio ,"convidavam" as parceiras para os ramos da velhinha sobreira - que ainda hoje lá está - no outro lado da ribeira , junto às escolas.
Muitas vezes a maleita chegava com o Entrudo, e numa daquelas tardes "de entrudo borralhudo"- muito soalheira - na "minha" rua o folguedo era total. Uns jogavam ao cântaro e outros corriam o entrudo com as caras tapadas com meias e quase sempre travestidos. Eram raras as máscaras e o dinheiro para as fitas-serpentinas- também , por isso , quando passava pela rua algum "entrudo" que atirava uma fita , a garotada fazia uma grande algazarra e corria para agarrá-la, mas sempre nos vinha parar ás mãos partida em bocaditos. Era da praxe que todos os mascarados dessem pelo menos uma volta ao povo. Por isso lá passavam pela rua de baixo rumo ao Cabecinho e depois de volta pela rua de cima até á Ponte.
Num dessas tardes a algazarra na rua subiu de tom e de repente fiquei sem companhia ,porque as minhas "visitas" correram para as janelas da sala para verem o espetáculo que desfilava na rua , dois andares abaixo . Embrulhado num cobertor e carregado ao colo até á janela, tambéu eu me diverti um pouco - O colorido não era lá grande coisa - tudo a atirar para o cinzento e para o azul das roupas de ganga (brim) dos mineiros e operários , - mas o cenário não deixava de ser originalíssimo : - Á volta duma mesa redonda coberta por uma toalha feita de sacas de adubo e carregada por 6 ou 8 foliões rodeados também eles da cintura para baixo por uma saia -também de saca- até aos pés, seguiam rua abaixo divertidos , enquanto passavam entre si uma grande penicada . Dento do grande bacio de esmalte azul podia ver-se o vinho branco a imitar perfeitamente a urina e o resto eram grandes pedaços de farinheira e chouriça que eles também iam comendo.
Depois da breve paragem e da rodada bebida, o folguedo continuou até ao escurecer e eu fui carregado de volta para a cama alagadinho em suor.
No ano seguite também eu fui correr o entrudo, junto com mais meia dúzia de mascarados, teria dado a volta completa ao povo todo contente por ninguém descobrir quem era eu, mas quando eu menos esperava , ali próximo da igreja ,um matulão p'raí de 12 anos de idade puxou pela meia que me cobria cara , e eu, desmascarado corri para casa morto de vergonha como se me tivessem despido da cabeça aos pés.