sábado, dezembro 01, 2007

Ainda há alma de mineiro?

Para quem já leu o "Jornal do Fundão" de esta semana, já deu de caras com uma capa que a muitos sobralenses deve ter dado "um nó no estômago".


"Já não querem ser mineiros",
é a frase que melhor resume uma excelente reportagem de Nuno Francisco (repórter do Jornal do Fundão), que num período em que estamos diariamente a ser confrontados com os elevados índices de desemprego do país, nos vem mostrar uma realidade bem diferente bem aqui ao lado, nas Minas da Panasqueira.


Depois de alguns anos de crise financeira e administrativa, agora que a extracção do minério voltou a ganhar vigor no complexo das Minas da Panasqueira, a crise é outra. Há trabalho, mas não há trabalhadores.

Decidi publicar esta noticia aqui no blog, porque muitos dos nossos familiares trabalharam na mina. Este foi o ganha pão de muitas familias sobralenses, e se hoje somos uma aldeia orgulhosa das nossas capacidades devemos isso aos avós e pais, que pisaram durante anos os caminhos da mina para poderem dar o melhor aos filhos.
Não só os homens que faziam o trabalho mais duro, mas também as mulheres que, numa fase de grande densidade populacional no couto mineiro, venderam ovos (entre outros bens) durante muitos anos.


A pergunta que se põe aqui é o porquê de depois de terem sido colocados vários anuncios de emprego na mina e não ter havido respostas no período de várias semanas? Porque ninguém quer trabalhar nas famosas Minas da Panasqueira?
Eu não trabalhei na mina, mas suponho que o trabalho nas galerias seja duro, não só fisicamente, mas também psicologicamente.

Será que hoje em dia, nós os mais jovens, não somos capazes de desempenhar funções mais duras?
É verdade que quem estuda durante 17 anos está à espera de ter um emprego mais confortável, mas será que já não há vocação, ou gosto por certos trabalhos?
Será que o ordenado e beneficios não compensarão?


Não sei, e não quero julgar ninguém, mas quando li esta reportagem tive pena...pena de olhar para todo o potencial (não só em termos de industria de extracção de minério, mas também potencial turistico) e saber que ele está a ser desperdiçado.
Penso que as Câmaras do Fundão e Covilhã deveriam tentar incentivar, ou fomentar certas politicas que possibilitassem a fixação da população activa na região.


No aspecto emocional, pessoalmente esta noticia tocou-me muito. Para quem não sabe a alcunha da minha familia materna "Galhetas", é herança do tempo de mineiro do meu avô, o "Alfredo Galhetas".
Eu cresci envolvida nas histórias fantásticas do tempo de mineiro do meu avô e tenho pena que essa herança cultural da nossa regiao não se possa manter por muitos anos.

E o pior, é que se um complexo industrial desta envergadura não consegue travar a desertificação do pinhal interior, o que irá travar?

5 comentários:

Anónimo disse...

O problema não será viver no interior, mas será o facto de os jovens de hoje terem sido criados com muito mais facilidades que antigamente. E como é tudo mais facilitado preferem esperar pelo emprego perfeito do que ter um trabalho mais duro.
Não critico os jovens,e felizmente que as facilidades hoje são em maior número.
Mas digam lá se não faz um bocado de confusão saber que os nossos pais iam a pé para a mina, e hoje nem com carros e todas as comdidades ninguém quer ir para la!

mariita disse...

Das Minas, tenho as memórias tristes de muita gente, que ficou sem os familiares quase na flor da vida - os meus avôs - mas particularmente meu tio João.

Hoje, para atrair interessados que informações há?
Quais as condições de higiene e segurança que ali se praticam?
Os vencimentos, os horários, as regalias sociais, a modernização dos equipamentos, estão em conformidade com o tipo de trabalho que se exige?
Para que o projecto "vingue" se é mesmo certo que alguém nisso está interessado, tem de agir em conformidade.
Porque, ser "enterrado" em vida, não deve ser própriamente uma coisa agradável...

virgilio neves disse...

Ainda um dia hei-de escrever aqui sobre os 9 meses que passei debaixo da terra. Lá nas Minas da Panasqueira, quando tinha os meus 19 anos(E MUITOS "ESTUDOS" -NAQUELA ALTURA) e tive que mendigar trabalho...onde só mo deram por ser filho de ex-mineiro que lá deixara 24 anos da sua vida.
Isto em 1975 a ganhar 6 contos por mês, porque em 1978 (depois da tropa)já ganhava 36 contos na Suiça.

Jessy James disse...

A mariita mais uma vez acertou , a mina deixou muintas criancas sem pai e muintas viuvas na nossa terra ,quem se arranjar sem ter que ir la para dentro nao perde nada so ganha saude.durante um ano fui mineiro ,o trabalho nao era muinto duro mas as condicoes de trabalho erao do pior que encontrei ate hoge

Anónimo disse...

Nasci nas Minas da Panasqueira no dia 18 de Janeiro de 1948.
À minha mãe foi-lhe atribuída uma casa na primeira fila de casas.(Barroca Grande). Contava ela,(morreu em 1997) que sempre que a sirene tocava entrava em pânico. Pensava que era o meu pai que tinha morrido. Aquele toque, já o conhecia bem, era quando um mineiro morria.
A vida para ela transformou-se num permanente sobressalto. E, assim, regressamos à aldeia tendo o meu pai emigrado para África.
Quando regressei fui às Minas da Panasqueira e passei pela Barroca Grande para ver a casa onde tinha nascido... Estou a ficar velha.